Do jornal Correio Braziliense de ontem
Perigo nas águas
Ullisses Campbell - Da equipe do Correio
TRANSPORTE FLUVIAL
Naufrágios se repetem e provocam discussão sobre a segurança das embarcações que viajam pelos rios brasileiros. Corpo de um dos nove turistas desaparecidos no Pantanal foi resgatado ontem
Nas cidades mais distantes da Amazônia, os rios funcionam como asfalto e os barcos de passageiros assumem o papel dos ônibus. Deles, a população depende para se deslocar para o trabalho, a escola e os postos de saúde. As embarcações também são fundamentais para viajar entre uma cidade e outra. No entanto, andar de barco nos rios da Região Norte está cada vez mais perigoso. Segundo a Diretoria de Portos e Costa, órgão ligado ao Ministério da Marinha, só no ano passado ocorreram 123 acidentes com vítimas. A maioria é de barcos de passageiros que naufragaram por causa de excesso de passageiros e de colisão com outras embarcações.
“Em 1981, um barco afundou no Amapá e mais de 400 pessoas morreram. Ou seja, não é de agora que os acidentes ocorrem, mas vêm acontecendo sucessivamente”, diz a deputada Janete Capiberibe (PSB-AP), presidente da Comissão da Amazônia, Integração Nacional e Desenvolvimento Regional da Câmara dos Deputados. No próximo dia 27, uma audiência pública vai debater os riscos que cercam uma simples viagem de barco. “Quando um passageiro embarca, ele só conta com a ajuda de Deus. Só quem conhece a região sabe o quanto é arriscado navegar nos rios da Amazônia”, alerta o deputado Carlos Souza (PP-AM), autor do requerimento da audiência.
O parlamentar apresentou o pedido logo após o acidente envolvendo passageiros do barco Almirante Monteiro e uma balsa de transporte no Rio Amazonas, ocorrido no dia 21 de fevereiro, que matou 16 pessoas. A embarcação, que levava 110 passageiros, bateu em uma balsa de combustível que vinha na direção oposta e naufragou.
Segundo o primeiro-tenente Olavo Guimarães, da Capitania dos Portos da Amazônia Oriental, o principal problema é que o tráfego de embarcações é muito intenso entre as maiores cidades e não há sinalização nos rios para orientar a navegação. “Se houvesse algum tipo de orientação, o acidente no Rio Amazonas envolvendo o barco Almirante Monteiro poderia ter sido evitado”, diz o primeiro-tenente.
120 mil barcos
Pelas contas da Marinha, por mês, cerca de 5 milhões de passageiros usam o transporte coletivo fluvial na Amazônia Oriental e Ocidental, que englobam Amazonas, Acre, Pará, Rondônia, Roraima e Amapá. Por lei, cabe à Marinha fazer a fiscalização das cerca de 120 mil embarcações que navegam na região. Mas as capitanias dos portos não têm pessoal nem equipamento suficiente para essa tarefa. Apesar de ninguém no Ministério da Marinha ter comentado esses números, o órgão revelou que há apenas 197 pessoas atuando na fiscalização de todo esse superlativo tráfego fluvial na Amazônia.
Na audiência pública da Câmara, o deputado Carlos Souza pretende debater todos esses pontos. Ele sugere que os barcos que transportam passageiros na Amazônia, que são todos feitos de madeira e têm média de 15 anos, sejam substituídos por navios de ferro, considerados mais seguros. Mas, para essa mudança, as empresas que administram essas embarcações precisariam de uma linha de crédito específica para fazer as substituições.
Outro assunto que deverá ser debatido é o escalpelamento, que atinge principalmente mulheres e crianças. Como as embarcações trafegam com equipamentos de rotação muito próximos aos passageiros, é comum que os cabelos se enrosquem nos aparelhos e sejam arrancados, juntamente com o couro cabeludo e a pele do rosto. Janete Capiberibe tem um projeto que obriga os donos de barcos a colocarem um equipamento que cubra o motor e o eixo. O PL deve ser votado ainda neste mês na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ).
Quando um passageiro embarca, ele só conta com a ajuda de Deus
Carlos Souza, deputado federal (PP-AM)
O número
123
acidentes com vítimas ocorreram nas águas brasileiras em 2007, segundo a Diretoria de Portos e Costa
Comentários
Nenhum comentário para “Morte nas águas”
Comentar