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Artigo

Artigo: Orivaldo Fonseca


O pintor e cineasta Andy Warhol profetizou nos anos 1960 que “um dia, todos terão direito a 15 minutos de fama”. Macapá teve oitenta! Ou alguém se ilude que no Carnaval de 2009 alguém, fora daqui, saberá que esta terra fica mais ou menos distante que Marte? Tudo bem, a Beija-Flor ganhou — merecidamente —, o ego tucuju inflou como um baiacu, mas passado o oba-oba do Carnaval, é chegada a contrição da Quaresma. Do pó viemos, ao pó retornamos. Ou será que se passou a olhar diferentemente para Poços de Caldas ou para a África? Epa! O que Poços de Caldas e África têm a ver com esta conversa? Tudo, esses lugares foram cantados nos enredos da Beija-Flor em 2006 e 2007, respectivamente. E até onde se sabe continuam do mesmo jeito que estavam antes de irem para a Sapucaí. Isto porque o grande e único enredo da Beija-Flor é a Beija-Flor e ponto.

A Beija-Flor fez o que tinha de fazer. E fez bem. Não pode ser desqualificada por ser linda. Agora o que não pode também é a Parceria Nota os Dois se apropriar de méritos que não são seus, gastando recursos e paciência públicos em propaganda enganosa. Aliás, recurso e propaganda sempre andaram de mãos dadas nesses Brasis. Pode faltar recurso para tudo o que se pensar, mas não há administração pública que não regue bem regado a planta publicitária. Dados do próprio Governo do Amapá mostram que só em 2007 foram torrados R$ 8.727.013,63 em publicidade e propaganda. Vide http//www.amapa.gov.br/gastos/resultado.php.

Tanto apego à imagem passa a idéia de que o governador do Amapá e o prefeito de Macapá têm espelhos mágicos quebrados em seus palácios. A cada consulta, os espelhos devem responder: “Não, a sua administração é a mais bela de todas!”. E a vaidade de ambos fê-los parecer patéticos durante da apuração do Carnaval no Rio. Se um bicheiro era filmado, os papagaios apareciam pousados em seu ombro. Câmeras em cima de Neguinho da Beija-Flor, batiam asas para o ombro deste. Rayssa Oliveira mostrava o samba no pé, lá estavam no pé da moça. Vi a hora de eles
protagonizarem a Dança do Siri para serem notados e, de chapéu na mão, irem infernizar os repórteres por “uma entrevista, pelo amor de Deus!”.

Mas enquanto quiserem vender lá fora um produto que não existe, tudo bem. O comprador não sabe mesmo o que está comprando. Mas querer vender esse quadro grosseiramente falsificado para nós, sabedores da falsificação, é empulhação demais. As campanhas
publicitárias do Governo e da Prefeitura parecem destinar-se aos nossos vizinhos marcianos. Em uma delas, há um taxista que diz ter uma renda melhor agora, porque antes o carro não saía da oficina. Onde está o carro agora? No ferro-velho? Ou se perdeu em uma das crateras da cidade? Em outra, há o relato de uma carioca que, após rodar mundo, atingiu o nirvana, vendendo coco na Beira-Rio. Ou da mulher que agradece
aos céus (o Governo) por sua filha conseguir estudar em escola pública. E a propaganda termina como se se corresse por uma estrada lindamente pavimentada em direção à luz e ao futuro que, por ser futuro, nunca chega. Com todos sorrindo em câmera lenta, porque a empulhação é “o jeito de ser do povo daqui”.

* Orivaldo Fonseca é poeta e compositor.

Comentários

Um comentário para “Artigo: Orivaldo Fonseca”

  1. Muito bom, ironia e indignação na dose certa.

    Arti

    Escrito por Anonymous | 3/03/2008, 9:43

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